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[Comportamento] O playboy e o brega

julho 7, 2011


Posso parecer um tanto quadrado e atrasado em relação a isso, mas ainda tenho na minha cabeça que boate é aquele lugar onde os playboys e patricinhas vão (ou iam) para ouvir “bate estaca” (pai, aquele abraço) e jogar seus charmes uns para os outros atrás de uns beijos na noite.

Essa segunda parte ainda deve continuar, mas com a evolução das coisas acho que a busca vai além dos beijos em público. Mas o papo aqui não é conquista. Isso acontece em qualquer ambiente frequentado por jovens. A questão é a desvalorização do ambiente playboyzal.

Não que eu vá para tais pontos, mas como um cara íntegro (risos) leio jornais e internet para ficar sabendo das coisas. E ultimamente tem me surpreendido a invasão das festas de brega e funk nos ambientes da alta sociedade. Porra, cadê o Dj Farenheit? Cadê a música eletrônica e os jogos de luzes que, regados a ecstasy, predominavam na balada?

Já era. Agora só o que se vê são as menininhas do bairro nobre dançando feito as-raparigas-da-favela-que-dançam-se-esfregando-nos-machos, como outrora elas mesmas chamavam. E os boys que antes ouviam Chiclete com Banana às alturas em algum select, agora se deliciam nas letras dos bregas e funks da vida.

Saudades dos tempos em que só se ouvia “vamos tomar umas balinhas pra ficar ligado” em vez de “vamo fumar uma pedra pra parecer da favela”.

Esse mundo tá de cabeça pra baixo. Vejam só, chegamos ao ponto de desejar a volta da cocotagem tradicional. Não que eu fosse parar de falar deles, mas pelo menos eram honestos com eles mesmos.

Agora é só esperar pra tocarem seus carrões importados por Gols pretos.

(Copiando as garotas do Sou para-raio de doido) para ler ouvindo: McSheldon – Desculpa meu amor se eu te ofendi.    

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[Nada contra] Lei 5.998/11

julho 6, 2011

Acho mais fácil acreditar na existência de Deus do que acreditar na existência de um Estado laico no Brasil. Essa descrença é renovada cada vez que vou numa instituição pública e me deparo com Jesus crucificado em algum canto. Ou quando surge uma aberração como a Lei 5.998/11, de autoria do deputado Edson Albertassi (PMDB-RJ), que obriga as bibliotecas do Rio de Janeiro a disponibilizar pelo menos um exemplar da Bíblia, sob pena de multa de mil a duas mil Ufirs (1 Ufir = R$ 1,0641).

A Bíblia é um livro maneiro, claro; tem suspense, intrigas, mortes, uma pitada de sexo, passagens surrealistas etc. Mas, apesar de alguns ingredientes que podem se considerados bem bacanas, a Bíblia, convenhamos, não é lá um primor de qualidade. Se esquecêssemos que é um livro sagrado pra uma pá de gente e fizéssemos uma análise crítica dela, certamente não seria considerada literatura mais sofisticada do que a do Paulo Coelho.

Nada contra a Bíblia nem muito menos contra a presença dela em bibliotecas. Mas ela pode estar lá pelo simples fato de ser um livro, assim como a série do Harry Potter, por exemplo.

Não há sentido em criar uma lei para garantir o acesso a qualquer que seja o livro. Muito menos um livro religioso. E se a Constituição proíbe distinção entre os brasileiros, acredito que pela lógica as bibliotecas deveriam ser obrigadas a terem Torá, Alcorão , Livro dos Mórmons, obras do Allan Kardek e de tudo quanto é religião. No fim das contas, provavelmente não ia sobrar muito espaço pra literatura de verdade. Mas e daí, né? Deus é brasileiro e ele há de ajudar.

 

[Cinema] Transformers é quase Nouvelle vague

julho 1, 2011

 

Michael Bay é o Godard da nova geração. Tal como o francês, Bay, com sua franquia Transformers, se mostrou um diretor transgressor e visionário. E o paralelo entre os dois cineastas é inevitável.

Assim como num filme do Godard ou de qualquer outro da Nouvelle vague, Transformers tem todas aquelas características utilizadas para definir esse gênero francês: intransigência com os moldes narrativos do cinema estabelecido; montagem atípica e narrativa fora do convencional. Aliás, ouso dizer que tanto o Jean-Luc Godard quanto o Michael Bay subvertem ao máximo a estrutura de seus filmes ao eliminar quase por completo o uso da narrativa.

Enquanto Godard constrói filmes a partir de cenas de pessoas com expressões blasés fazendo comentários pontuais sobre qualquer coisa entre um trago ou outro de cigarro, Bay mostra ousadia ainda maior. Para radicalizar, ele utiliza robôs, que embora mais expressivos e humanos do que atores franceses, são, sem dúvida, uma quebra de paradigma.

Quer subversão maior do que fazer um filme de 2h40 de duração que é essencialmente uma luta barulhenta de robôs gigantes? Radicalizar e inovar o cinema é isso. Nada contra o Godard e a Nouvelle vague (o movimento artístico, não a banda, que tem vocalistas charmosas), claro, mas acho que o Michael Bay se saiu melhor.

E por mais irrelevante que seja uma série de filmes com robôs gigantes se enfrentando enquanto destroem cidades, ao menos eles têm o mérito de serem mais divertidos e, até mesmo, mais pertinentes do que significativa parte da produção cinematográfica francesa.

[Arte] Tom Pastel

julho 1, 2011

Com a ajuda da minha amiga Marina Pontual.

[Relacionamento] Casamento: festa ou sofrimento?

junho 29, 2011

Não precisa de muito tempo de namoro ou qualquer tipo de relacionamento sem definição, mas que seja sério, para começar a se falar e planejar casamento. Papos que o amor é eterno, típicos da empolgação inicial, são cada vez mais frequentes. É hora de trocar as alianças e dividir o mesmo teto.

Porém, esse sonho do casório se divide em duas etapas bem simples: fantasia e realidade.

 

A Fantasia

Começa o sonho do dia do casamento. Subir o altar acompanhada pelo pai, vestindo um belo vestido de noiva. Dizer “sim” ao padre com lágrimas nos olhos. Jurar amor eterno, na saúde e na doença; na alegria e na tristeza.

Depois da igreja todo mundo pra recepção. Champagne pro meu povo. Whisky também. O Buffet é impecável e não deixa faltar nada. O noivo pede licença pra tocar com a orquestra e canta “eu te amo” de Roberto Carlos pra noiva. Emoção geral. Que noite. No outro dia o mais importante não é ter se divertido, mas saber se os outros gostaram da sua festa.

Sair da festa é correr para o hotel, descansar e lua-de-mel-aí-vou-eu. Paris, claro. Toda noiva quer Paris. Torre Eiffel, sua linda. Jantar em restaurantes legais. Se hospedar num hotel bacana. Curtir a cidade a cada minuto. Sem falar que o idioma é lindo, né? Vamos combinar (desculpa, me exaltei um pouco).

Volta pra casa. Apê novo. Todo mobiliado. A cozinha dos sonhos, king size no quarto, TV 50”. Tudo como sempre sonhou. Serão dias e noites maravilhosos no ninho do amor. Dormir de conchinha. Passar o domingo no sofá embaixo de um cobertor comendo brigadeiro. Que filme lindo essa comédia romântica. Quanto amor.

De vez em quando ela sugere que ele saia com os amigos pra tomar uma cerveja e se distrair com eles. Se afastar não é muito bom, né? Ele vai, volta um pouco “alegre” pela bebida, ela dá banho nele, faz café e bota pra dormir.

Daí chegam os pimpolhos. Bebês lindos, saudáveis e simpáticos. Só alegria. Só.

E nesse ritmo vão levando até o fim da vida. Com amor. Muito amor.

 


 

A Realidade

Organizar o casamento consumiu uns três anos do casal. Financeira e emocionalmente. A cerimônia foi demorada e chata. O padre parecia não querer acabar com aquilo e os convidados só pensavam em comer e beber às custas dos pombinhos.

Chegaram de manhã completamente bêbados e não tiveram noite romântica. Partiram pra lua-de-mel em Gramado. O cara passa da conta no vinho e deixa o romantismo de lado. De noite sugere um bar pra irem.

Voltam com aquele sorriso amarelo de “foi ótimo” pra todo mundo. O apê apertado ainda está bagunçado e a reforma não ficou muito bem feita. O primeiro fim de semana é o encanador. O segundo do marceneiro.

Aos domingos eles até ficam juntos no sofá. Ele vendo futebol e tomando cerveja. Ela tomando desgosto querendo ver Faustão. Quando cogita sair com os amigos, ele ouve “eu conheço seus amigos e sei que vão pra putaria”.

Mas aí chegam os meninos pra alegrar. Pra que dormir se você pode passar a noite ninando e limpando merda? No outro dia vai pro trampo ouvir chatice do chefe sem ter pregado o olho durante a noite toda. Quando retorna, é questionado pelo leite. Não tinha grana. Tá apertado. Dá água com açúcar que acalma e engana a fome.

Em dois meses já não se suportam. Ela regula. Ele avacalha.

E nesse ritmo vão levando até o fim da vida. Ou até a separação.

 

[Social] Música ao vivo, não.

junho 28, 2011

Era apenas pra ser uma reunião de amigos. Fazia tempo que não colocavam o papo em dia, saber como anda o trabalho do parceiro, a vida com a esposa etc. Melhor lugar para isso? Um bar, né?  Tomar cerveja, provar uns petiscos e falar sem parar. E só. Nada mais.

Pelo menos não era pra ser nada mais do que isso. O que não sabiam é que naquele bar escolhido, o mesmo que sempre frequentavam nos velhos tempos, agora conta com a presença de um cidadão com um violão ligado a um amplificador e um maldito microfone à sua frente.

Mal sentaram e o clima de desconfiança já predominava. “Ih, rapaz, música ao vivo é meio chato e inconveniente”, disse um deles. “Besteira, quando a gente tiver conversando nem vai notar”, tentou acalmar outro. Então começaram a beber e se distrair enquanto o músico, com sua boina pra trás, ajeitava o som.

Eis que de repente vem aquele primeiro chiado de microfonia. O bar fica em silêncio. Todos se assustam. Alguns já ficam putos da vida. Na sequência, para tentar acalmar, um “boa noite” sai do som. Em seguida, alguns acordes no violão e o cara começam “às vezes no silêncio da noite…”.

Um dos amigos não se controla e solta “Puta que o pariu, meu irmão. Esse cara tá de brincadeira. Eu vim aqui pra beber, não foi pra ouvir Caetano Veloso choramingar”.  A senhora na mesa ao lado olha de cara feia. Estava curtindo a canção.

Os outros que o acompanhavam foram tentando contornar a situação. “Daqui a pouco a gente tá bêbado e canta com ele”, disse um. O outro mais comedido disse “vamos focar aqui na mesa e esquecer que ele está lá”. Serviu pra acalmar por alguns minutos.

O carinha do violão, após agradecer os aplausos dos mais animados, manda uma de Ana Carolina. O amigo exaltado chamou o gerente. Tentou explicar que era cliente antigo e nunca viu nada tão absurdo no bar. “Antigamente tocava Mutantes por aqui”. Na hora que falou isso, a música acabou. O músico ouviu o final do papo, afinal estava próximo da mesa. “Mutantes? Então vai essa aí para o meu amigo aqui na frente”. E começou a tocar “Amor e Sexo”, de Rita Lee.

Vendo que dificilmente os amigos sairiam dali pra outro bar, o mais exaltado e já puto da vida com tudo isso, achou uma solução. “Garçom, traz quatro caninhas, por favor. Vocês querem alguma?”. Depois de virar todas em um minuto, mandou até bilhetinho pro tocador. Pedia Beatles ou Stones. Só viu uma careta quando o cara leu o bilhete.

O músico já ia em “Chão de Giz”, fazendo o dueto de Zé e Elba Ramalho, quando pediram a conta. E nela veio um tal de couvert artístico. Custava R$ 10 por cabeça. Ele parecia conformado. Deixou o dinheiro na mesa e disse que ia ao banheiro. Mas no meio do caminho fez o que muitos sonham em fazer: pulou no pescoço do “artista” e gritou “cala a boca, filho de uma puta”.

[Folclore] A nova mitologia brasileira

junho 27, 2011

Histórias de saci e boitatá são coisas do passado, não convencem mais ninguém. As novas gerações criam seus próprios mitos. Ou, muito pior, tornam-se eles.

A classe média sem cabeça

Bastante popular, a classe média sem cabeça vive (ou seria parasita?) em boates, bares e casas de shows, sendo considerada a mais urbana das criaturas folclóricas.

De hábitos predominantemente noturnos, ela pode ocasionalmente aparecer durante o dia, em academias e cursos de direito ou ciências da computação, sempre utilizando algum disfarce humano. A aparência é qualquer coisa entre um novo rico e um mendigo.

Por não ser dotado de cabeça, este ser é, obviamente, acéfalo. Mas mesmo sem boca nem cérebro, a criatura desenvolveu um vocabulário primitivo. Na juventude, que vai do nascimento aos 39 anos de idade, a fala é usada sobretudo para fins de fornicação, ou azaração, como eles definem no seu particular linguajar.

E ainda que falte uma parte tão importante do corpo, muitos consideram a classe média sem cabeça como uma criatura de aparência bastante agradável, o que tem garantido sua sobrevivência no Brasil desde sempre.

Aparentemente imortal, esse estranho animal sobrevive a tudo que é considerável nocivo a um ser humano: axé music e música sertaneja em volumes ensurdecedores, festas da juventude do partido Democratas, pagodes horrorosos, fungadas em lança-perfume, compras divididas em 36 parcelas no cartão de crédito, leitura da revista Veja e horas a fio no Facebook.

Embora a classe média sem cabeça acredite piamente que faz alguma diferença para a sociedade, não há nenhuma evidência que esta criatura tenha interferido no dia a dia dos humanos. Se você não é um deles, pode ficar sossegado, eles não oferecem perigo.